“GLUE” COMPRESSORS SEM SEGREDOS

Eu não sei vocês, mas sempre que vou usar uma dessas super colas me dou mal. Sempre acabo colando dois dedos ou ficando com uma camada de cola na mão que leva um tempo pra sair. O que obviamente me lembra do áudio. Esse negócio de “colar” uma mix entregando essa função para um equipamento insertado no final da cadeia é tão perigoso quanto tentar abrir um tubo de superbonder que estava guardado há meses na geladeira.

Uma questão de Termos

De tempos em tempos aparece uma expressão nova no áudio que não tem nenhum fundamento técnico mas que ganha popularidade. Ela começa com os fabricantes apelando à inexperiência dos novatos, arranjando um termo que resuma uma função bem subjetiva. Daí alguns influencers começam a usar e imediatamente a expressão vira algo com aspecto de verdade.

O tempo todo eu vejo as pessoas falando de compressores que dão “aquela cola” nas mixes, os tais “glue”  compressor. E muitas vezes me perguntam qual o melhor deles, como se isso fosse uma função técnica com algum embasamento. Mas infelizmente não é.

Não existe nenhuma definição técnica de “glue” numa mix, por mais que a gente tenha ouvido falar disso por aí. Mas vejamos o que está sob essa camada adesiva.

Bus Compressors

Existem alguns compressores que são comercializados como específicos para se usar nos masters de grupo ou no master da mix, e não nos canais individuais. O que hoje é um apelo comercial começou como uma necessidade.

Os compressores apareceram para usar melhor o volume das mídias, principalmente de broadcast. Eram niveladores de volume, e principalmente eram caros. Essa era uma época em que não existia multitrack. Era tudo gravado junto. Então todo compressor era um “bus compressor”.

Mesmo mais tarde, comprimir sempre foi uma função menos abundante em termos de equipamento, então não tinha um monte de compressores dando sopa. Ao mesmo tempo, precisamos lembrar que as mídias (tipo fita analógica) precisavam que a gente aproveitasse bem sua faixa dinâmica. Comprimir a master era praticamente uma obrigação.

Daí a fama de grandes compressores, e muito provavelmente, do Rei da Cola – o SSL Master Bus Compressor do console SSL 4000 (que apareceu por volta de 1979).

Vamos deixar desde já uma coisa bem clara: o SSL Master Bus Compressor é um equipamento excepcional , e funciona extremamente bem em um master bus, mas não necessariamente “cola” nada.

Mas o que faz de um compressor um Bus Compressor? Nada. Comprimir é comprimir. A gente pode usar um Bus Compressor em um canal individual? Claro! E um compressor “comum” no bus? Por que não? Mas, temos que admitir, algumas características de compressão funcionam muito bem quando se trata de um grupo de informações distintas somadas a sua entrada. Vamos ver isso adiante.

O Que Seria “Cola”?

Pois bem, precisamos identificar afinal o que é essa tão desejada cola na mixagem. O que eu entendo como cola –  e pode perfeitamente ser diferente do que você pensa – seria uma sonoridade conjunta dos instrumentos e vozes, resultando num som coeso, unido. Infelizmente eu preciso frustrar um pouco o pessoal adepto da solução fácil.

Isso tudo é subjetivo. Não tem como medir. E mais, essa cola deve basicamente vir da contribuição individual de cada canal. Se uma mix soa toda desconjuntada não vai ter nenhum compressor colocado no master que deixe ela coesa. Se a gente tem instrumentos que brigam pela atenção do ouvinte, que mascaram uns aos outros, que se embolam no arranjo, não tem cola que funcione.

Mas nós podemos interpretar essa tal cola como uma função, um jeito de se ajustar um compressor. Aí a coisa pode começar a fazer sentido.

O Que Fazer No Master

Em termos de dinâmica (compressão), eu costumo encarar o processamento do master em duas funções distintas: o controle de transientes e o controle de nível médio. Para o controle de transientes – sinais de alta intensidade e curta duração – um compressor muito rápido e com ratio bem alta pode ser o indicado , e essa função cai super bem no colo de um Limiter.

O controle do nível médio, porém, eu costumo entregar para um compressor mais lento, rms, com um threshold baixo e com uma ratio baixa, na casa de 1,5 a 2:1. Isso faz com que as variações mais lentas de volume tenham uma amplitude menor, e através do make up gain a gente possa aumentar o nível médio da música.

Acredito que essa seja em essência a função de “cola”, embora eu discorde do nome. Eventualmente, o controle das variações momentâneas de volume médio pode sugerir uma coesão entre os instrumentos, visto que a sua entrada e saída não provoca uma variação apreciável de loudness. E por isso as pessoas começam a achar que o termo “cola”, cola. 🙂

Exemplos

Obviamente precisamos começar com o SSL. Costumo usar em 2:1, com a GR batendo no máximo em 4dB, o release em Auto (que é bem lento) e o attack em 3, o que é bem rápido em tese.

Outro compressor de que gosto muito nessa função é o FG-Red da Slate. Os ajustes são praticamente os mesmos: ratio 2:1, GR máxima em 3dB, attack a meio, auto release, e um drivezinho de uns 30%. Uma beleza.

Mas o que realmente tenho usado mais é o TDR Kotelnikov, que tem a vantagem adicional de ser free e soar lindamente. O controle Peak Crest é o “segredo” a ser dominado. Ajusto para que o led de release peak acenda quando aparecem sons curtos (tipo caixa da bateria). Ratio em 2:1 , GR em 3dB máximo, attack e release no default. É um ótimo ponto de partida e funciona muito bem.

No vídeo abaixo, usei o Kotelnikov para uma cola sutil.

Outras Possibilidades

O  que vimos é que ser um bus compressor não é exatamente uma característica, mas um jeito de usar um compressor. Na verdade dá pra usar qualquer compressor que você tenha e com que esteja familiarizado, inclusive quanto a particularidades de timbre e distorção. Então o cuidado adicional é lembrar que ao inserir um colador, está afetando a sonoridade da mix inteira – para o bem e para o mal.

O que importa é saber como usar bem essa função de controle de nível médio. E principalmente não confiar em apenas um elemento para “colar” sua mixagem. A cola tem que vir desde cedo. Cada track novo que a gente acrescenta precisa já se ajeitar com os colegas, ou no final a coisa vai ficar bem complicada.

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