Os Equalizadores São Todos Iguais?

Hoje a gente tem à disposição um número muito grande de ferramentas pra trabalhar, e os equalizadores são um belo exemplo disso. Existem equalizadores de todos os jeitos e “caras”, desde simulações de hardwares famosos a criações totalmente no domínio digital. Isso nos leva à pergunta: se eu ajusto 3dB de ganho em 1kHz com Q=0,7 no equalizador nativo da DAW e faço isso em uma simulação de um hardware famoso, o resultado é o mesmo ou não?

A resposta curta é Não, mas o motivo pra isso nos dá a chance de estudar coisas muito interessantes.

Topologias

Primeiro vamos analisar a questão dos equipamentos em si. Os circuitos eletrônicos podem ser projetados usando componentes diferentes em configurações diferentes, para fazer basicamente a mesma coisa. Para amplificar a gente pode usar válvulas, transistores, FETs, amplificadores operacionais e até um misto de todos eles , e aí entra a habilidade de cada projetista. Isso pra não falar de que existe algo muito importante em engenharia eletrônica que é a tolerância dos componentes.

Quanto mais precisos os componentes, mais caro o circuito, e a gente sempre trabalha dentro de tolerâncias. Alguém já disse que “engenharia é a arte dos 10%”. Existem meios de diminuir essa dependência, mas ela sempre existe em maior ou menor grau.

Em eqs de masterização os controles não são deslizantes, mas fixos, usando componentes de precisão para cada posição

No caso de equipamentos, o tempo ainda é um fator complicador, pois alguns deles, como os capacitores eletrolíticos, vão mudando de valor com o passar dos anos.

Isso faz com que dois equipamentos de mesma marca e modelo apresentem respostas diferentes. Quando algumas pessoas comparam a resposta de plugins simuladores com os equipamentos simulados costumam não levar em conta que se fizessem a comparação entre dois equipamentos “iguais” talvez notassem o mesmo grau de diferença.

Por falar em simuladores, os próprios projetistas de software estão conscientes desses fatores, e quando vão escolher um equipamento para simular procuram os que deem a melhor sonoridade.

Do lado do software, existem muitas opções de equalizadores que não são simulações de nenhum equipamento físico, e aí as diferenças que existem entre eles podem ser atribuídas a particularidades de cada algoritmo.

Onde Está A Diferença?

Primeiro, só porque o equipamento/software “diz” que está fazendo alguma coisa, não quer dizer que ele está realmente fazendo aquilo. O ganho pode não estar exatamente naquele valor, ou a frequência pode não ser exatamente aquela, ou a largura de banda não é exatamente aquela.

Um caso muito emblemático é dos equalizadores de Q proporcional, onde o valor de Q escolhido no botão começa mais largo para ganhos menores e vai se estreitando à medida que o ganho sobe ou desce. O API 550 é um exemplo. Isso é uma vantagem, porque geralmente as correções muito fortes são mais focadas em uma região estreita, e com isso os desvios mais acentuados de fase ficam para as acentuações e atenuações mais intensas.

Existem outras situações onde a topologia dos filtros usada influi no resultado (o Butterworth, por exemplo, é o usado nos Fabfilter), o uso de bandas paralelas ou em série, a desproporcionalidade entre o Q de ganho e atenuação, e muitas outras coisas.

Tipos de Filtros

Então o segredo do som diferente pode estar simplesmente no fato de que os mesmos ajustes em dois equipamentos/softwares diferentes (ou em dois exemplares diferentes do mesmo equipamento) podem não estar fornecendo a mesma curva.

Os Shelvings e o Pultec

Ah, o Pultec e toda a sua “magia”. Antes de mais nada, o EQP-1 A é mesmo um marco na história do áudio. Tem um som muito característico e é literalmente idolatrado. E faz por onde. É realmente um grande equipamento.

E mais, a gente dá ganho em 60Hz e recebe um sonzão instantaneamente!! Como é possível?

Pois bem, eu fui investigar e posso dizer que pelo menos uma parte dessa sensação que a gente tem ao usar o EQP-1A vem de um aspecto muito interessante.

Mas antes disso, deixa eu explicar uma coisa. Os shelving são traiçoeiros. Quando a gente opta por dar um ganho de 6dB de 60Hz para baixo, tem uma coisa que o equalizador não está nos dizendo: a partir de qual frequência esse ganho está acontecendo? 

Vamos então comparar dois equalizadores totalmente diferentes fazendo teoricamente a mesma coisa: o Fabfilter Pro-Q3 e o Waves PuigTec EQP-1A . A linha azul é o Pultec e a linha rosa é o Pro-Q3.

No caso do Fabfilter, a frequência que a gente escolhe no shelving é o ponto de turnover da curva, ou seja, os 60Hz são o ponto onde houve um ganho de metade do que escolhemos. Isso implica, como em todo shelving, que a gente está dando ganho desde pelo menos 100Hz ao escolher a frequência de 60Hz.

No caso do EQP-1A , fica evidente que ao escolher 6dB de ganho em 60 Hz estamos tendo ganho pelo menos desde 2kHz!!! Ou seja, muito da sensação de que “nossa, eu dei ganho em 60Hz e todo o som melhorou!” vem porque uma região enorme foi acentuada.

O Pultec Trick

O Pultec tem uma possibilidade interessante, pois há o controle de boost e atenuação para a mesma frequência, e, apesar do manual do equipamento original recomendar que isso não seja feito, existe a possibilidade de atenuar e acentuar em 60Hz ao mesmo tempo – o famoso “pultec trick”.

Vamos ver o que isso quer dizer?

Pois é, como as curvas de atenuação e acentuação são diferentes, quando se usa os dois juntos o que temos é uma “escavada” por volta de 1kHz que na verdade diminui o efeito do ganho muito largo. O Pultec trick é na verdade a correção a um problema que apareceu como efeito secundário.

O que importa é o som, sem dúvida, mas é bom a gente saber o que está realmente acontecendo, principalmente quando vai se somar esse canal com outros.

Em um equalizador de design mais moderno e versátil, como o Fabfilter (mas não necessariamente melhor) , podemos usar o shelving ressonante, que pode recriar e até deixar mais intenso esse tipo de efeito.

Além das Curvas

Mas a coisa não se limita à diferença entre as curvas. Voltando ao caso do Pultec, os elementos responsáveis pela equalização em si são todos passivos, como se vê no esquema:

As válvulas estão no equipamento apenas para amplificar. Mas assim mesmo elas imprimem suas características sonoras (distorção).

Ou seja, pode haver mais do que equalização em um equalizador, dependendo do circuito que está dentro dele.

Resumindo

As diferenças de sonoridade para uma mesma configuração em dois equipamentos/softwares podem ocorrer devido a tolerâncias e imprecisões, devido à topologia dos circuitos e aos componentes e devido às distorções inseridas pelo circuito.

Mas existe um outro fator importante a considerar.

Quem Equaliza?

O processo de equalização envolve uma cadeia de acontecimentos. Você tem que ouvir, propor uma equalização, analisar o resultado e atuar de novo na equalização. A coisa se repete até você ficar feliz .

Não é o equalizador que diz quando está bom. É você. Em alguns modelos o ajuste ficará de um jeito e em outros a configuração será diferente, mas a responsabilidade é de quem ajusta e não do equipamento.

É claro que aí entra um outro fator que é a facilidade de se chegar ao resultado, e aí  a coisa é realmente pessoal. Eu acredito que um dos fatores mais importantes em um equalizador, mais até do que o som em si, é a facilidade do operador em conseguir o que quer. Cada pessoa vai desenvolver seu estilo de equalização e cada tipo de circuito pode ser melhor para um ou para outro. Isso também vai depender do instrumento ou da função desejada.

O que a gente precisa evitar é a pressão social. Como todo mundo fala que o eq tal é o melhor equalizador para o contrabaixo, se eu uso e não consigo gostar o problema deve estar em mim. Nada disso! O melhor equalizador é aquele com o qual você trabalha melhor e mais rápido.

Deixe uma resposta